Durante a década de 1840, a renovação filosófico-social que modificara o panorama do pensamento europeu repercutira com muita intensidade no Brasil; além do pensamento de Lamennais havia o ecletismo filosófico de Victor Cousin, cuja obra foi traduzida, em Pernambuco, por Antônio Pedro de Figueiredo[4], e que tanto influenciou a juventude letrada da época, nele tendo se inspirado, inclusive, o poeta Junqueira Freire, e o socialismo utópico de Saint-Simon e de Fourier, teóricos que discutiam a importância da organização do trabalho e a organização da sociedade como imprescindíveis para a felicidade de uma nação. Diversos jornais como A Borboleta (1844) e O Globo (1844), no Rio de Janeiro, além da já citada revista O Progresso (1846-48), no Recife, divulgam essas idéias e alimentam debates com a imprensa religiosa, representada principalmente pela A Voz da Religião (1846), no Recife, O Musaico (1846-48), e O Noticiador Católico (1848-56) na Bahia. Da efervescência dos debates emerge a figura do “povo”, ainda bastante difusa e amorfa, mas que vai motivando obras, a princípio publicadas com pseudônimos, como A Cartilha do Povo (por Franklin, Recife: 1849) e O Socialismo (Recife:1855), ambas de José Inácio de Abreu e Lima, e O Libelo do Povo (por Timandro, Rio de Janeiro: 1849), de Francisco Sales Torres Homem. Esses homens que, opondo-se ao poder de D. Pedro II, pensavam encontrar alternativas para constituir a nação, investiram nas leituras e nos escritos sobre o “povo”, que, teoricamente, deveria constituir a base de um governo democrático.
Mais do que imaginação ou mera figura de retórica o “povo” era uma realidade para uma parcela dos políticos liberais, para o grupo letrado que não pertencia às camadas do poder ou para os jovens acadêmicos das faculdades de Direito e de Medicina. Seguindo a mesma tendência de Lamennais, poetas que defendiam idéias liberais passaram a dedicar sua lira ao “povo”, merecendo especial atenção os soldados recrutas, os veteranos das lutas da independência, a população livre mas desempregada e sem instrução. Há toda uma produção literária dispersa em periódicos ou mesmo em livros, mas que permanecem como a parte insignificante da obra de autores como Junqueira Freire ou de outros pouco conhecidos como Franklin Dória. Contemporâneos e amigos, ambos deixaram, embora com motivações diferentes, poemas dedicados ao povo que se tornaram precursores de outro baiano que também tratou do tema, reivindicando mais que o trabalho e a liberdade para o povo, o alimento do espírito - a educação - , e a conquista do poder, nos conhecidos poemas “O livro e a América” e “O povo ao poder”. Refiro-me a Castro Alves.
Consagro aos cantos do povo
A lira que Deus me deu:
Instintos do povo eu tenho,
Eu tenho o sangue plebeu.
Eu sinto, eu sinto da pátria
Fervendo-me a inspiração.
Ouve, ó povo, os meus cantares,
Ouve: que eu sou teu irmão.
.........................................
“Este sangue que em nós corre
Corre pelo corpo teu”
Instintos do povo eu tenho
Eu tenho o sangue plebeu.
E uma lira me ofertaram
De aço puro e refulgente
Como um alfanje afiado
Dos guerreiros do crescente.
Disseram-me: “Canta o povo.”
“Canto, sim”, - disse-lhes eu.
Instintos do povo eu tenho
Eu tenho sangue plebeu.
Quase que repetindo textualmente expressões de Lamennais constantes de Le livre du peuple, outros poetas publicam anonimamente versos, como os seguintes, em jornais da Bahia, também na década de 1850:
Tremendo inanido de frio e de fome
Nas ruas olhai-o sem força a cair;
A esmola que pede recusam-lhe altivos
Os que da pobreza costumam sorrir.
Soldados de outr’ora nos campos da pátria
Das pátrias nas lides seu sangue verteu:
E logo as feridas abertas no prélio
A pátria ao soldado jamais conheceu.
.........................................................
Se busca empregar-se na trêfega lida
Que o nosso comércio reduz a valor,
Quem é que vivendo não morre caixeiro?
Quem é que de escravo caminha a senhor?
Em lauto banquete famintos convivas,
Laceram a pátria sem pena, sem dó!
O povo... estrebucha nos braços da fome!
O povo... o gigante baqueia no pó! [7]
O artista nacional
Por que choram meus filhinhos?
Que dor cruel os consome?
Ai! que me falta o trabalho
Para matar-lhes a fome!
Choremos, filhos, de novo!
É esta a sorte do Povo!
Meu braço é forte e robusto,
Meu coração altaneiro;
Quero empregar-me, e não posso,
Porque nasci brasileiro.
Choremos, filhos, de novo!
É esta a sorte do Povo!
........................................................
Do Brasil toda a riqueza
Está nas mãos do estrangeiro:
Eu vou pedir uma esmola,
Porque nasci brasileiro!...
Choremos, filhos, de novo!
É esta a sorte do Povo![8]
De Franklin Dória, bem nascido poeta baiano, são os seguintes versos constantes de “O povo”, feito quando estudava na Faculdade de Direito do Recife:
Ei-lo, mísero, sem tino,
Pelo mundo a se arrastar!
Inda é hoje seu destino
Sofrer, sofrer e chorar.
Ninguém lhe escuta os lamentos,
Nem lhe alivia os tormentos,
Nem o consola sequer:
Envolto em rota mortalha
Ai do povo que trabalha
Para à fome não morrer!
................................
..................................
E por que calar meu canto,
Do povo elevado em pró?
Que assunto haverá mais santo,
Que o povo saudar no pó?
..........................................
Bendito aquele que sabe
Ser p’ra o povo sempre bom,
E embora oprimido acabe,
Não cessa de erguer-lhe um som!
Bendito seja o poeta
Que sua missão completa
Na lira o povo a cantar;
Que seus foros defendendo,
Que por ele combatendo,
Não teme a morte afrontar!
No contexto da nação que o poder conservador pretendia “construir”, produção literária desse tipo passará a ser considerada subversiva, antipatriótica, comunista. Depois das barricadas de Paris, em fevereiro e junho de 1848, “povo” passa a significar uma palavra execrável, logo associada a republicanismo e a ateísmo. O medo era tanto que os mais sensatos aconselhavam os mais afoitos para que a evitassem. Franklin Dória, depois de ter escrito o poema “O povo”, recebeu do seu primo, na Bahia, Antônio Joaquim Rodrigues da Costa, estudante da Faculdade de Medicina, a seguinte advertência:
Sei que tens escrito muitas poesias, e entre elas falam-me muito em uma, que se intitula “O Povo” - ajuízo o que será!
Alguma inspiração espontânea e robusta como a de Béranger quando exclamava “Le peuple c’ est ma muse”! uma canção soberba, e eloqüente como essa inspirada Marselhesa que dos lábios revolucionários de Rouget de L’Isle rompera na sua febre de liberdade a ir levantar as massas na França; mas - que ainda mal! fora o canto de morte que o tinha de acompanhar ao patíbulo![9]
A carta é de março de 1856, o poema “O povo” seria publicado em 1857, na revista O Progresso, do Recife, com modificações, segundo o autor, aconselhadas pelo seu pai. Em 1859, seria incluído no livro Enlevos, com uma nota em que o autor confessa ter sofrido influência de Lamennais:
Quem não leu ainda o Livro do Povo, de La Mennais? Meio namorado do estilo e do tom dessa obra, tão verdadeira, e, portanto, tão eloqüente , - uma das primeiras que folheei, quando comecei a tomar gosto pelas letras, - escrevi os meus versos. Meu Pai, meu único mentor, desde meus verdes anos, até em matéria de poesia, ouvindo-mos, notou-lhes um certo desafogo, lícito sim, mas que não agradaria a alguns ouvidos demasiado melindrosos.[10]
Quando o poema apareceu em livro, o mesmo Rodrigues da Costa volta a referir-se a ele, numa crítica publicada em jornal, afirmando que representava a “democracia tomada como fonte de poesia”, o que dava a seu autor “direitos a uma auréola popular - também a mais expressiva de todas”.[11]
Além de Lamennais, cuja influência foi marcante no discurso da imprensa e na produção dos escritores liberais, na década de 1850, outro nome considerado ameaçador para o projeto nacionalista do governo monárquico de constituir um bem comportado público leitor foi o do folhetinista francês Eugène Sue, que obteve sucesso retumbante, no Brasil, assim como em diversos países europeus, com obras como O Judeu Errante, Os mistérios de Paris e Os mistérios do povo ou história de uma família de proletários através dos séculos. Socialista e também eleito deputado, em 1850, ao vencer o forte candidato conservador, Leclerc, passou a ser tomado como influência negativa para a formação da boa sociedade culta brasileira.
A crítica que então se fazia aos folhetins franceses cujos enredos tratavam de personagens tomados às gentes do povo, seus costumes (ou maus costumes), suas histórias, desacertos, etc., tinha como justificativa a defesa da felicidade da vida doméstica e da tranqüilidade da família, “o respeito aos laços sagrados da união conjugal, do amor paternal e filial”.
Como não havia como proibir a circulação dessas obras no país, a imprensa conservadora procurava desmoralizá-las perante os leitores. Foi o que se deu com Eugène Sue, a partir de maio de 1850, quando o Correio mercantil passou a publicar, em folhetim, Os mistérios do povo. O jornal do comércio e o Correio da tarde, ambos conservadores, condenaram a obra, dizendo tratar-se de “catecismo do comunismo”. O correio mercantil justificou-se junto ao público leitor, esclarecendo que antes de iniciar a publicação submetera os originais ao exame de um grupo de “amigos prudentes e de gosto literário”, tendo chegado à conclusão de que as críticas oriundas de jornal europeu partiam de “aristocratas encanizados” que se opunham ao caráter político e social da obra porque esta pintava ao vivo fatos históricos e certas figuras da época. E o folhetim continuou a ser publicado até 1852.
Coincidência ou não, é nesse mesmo jornal que, em 27 de junho de 1852, inicia-se, anonimamente, a publicação do romance Memórias de um sargento de milícias, na seção popularesca “A pacotilha”. Manuel Antônio de Almeida era um dos redatores da seção, cujo estilo era irreverente e escrachado, crítico, satírico e de feição liberal. Como também exercia a função de tradutor, no Correio mercantil, é possível que o autor também estivesse incluído naquele grupo seleto de “amigos prudentes” que decidira pela publicação dos Mistérios do povo. Não deixa de ser indicativo de que sofria influência de Eugène Sue o fato de ter declarado, na “Pacotilha” de 4 de julho, que se Deus lhe desse vida e paciência, iria escrever outro livro cujo plano já estava esboçado com o título de Os mistérios do Rio de Janeiro.
Por essa mesma época, no seio do Paço Imperial, o grupo literário que se abrigava à sombra do manto de D. Pedro II, e publicava a revista Guanabara, sugeria que a literatura exercesse uma espécie de governo, que em nome da unidade, combatesse “o mal geral”, e reagisse “para a elevação da arte” e “da literatura nacional.[12] Observando, sobretudo, o teatro que adaptava folhetins estrangeiros, aconselhava aos escritores e atores que desejassem alcançar as alturas da sua arte para que não procurassem “a popularidade da escala inferior da sociedade, porque essa facilmente se subjuga, e cede a legítima influência dos homens superiores; ele deve edificar, e ser uma peça da máquina aperfeiçoadora; deve procurar a sociedade dos sábios, dos literatos e dos fisiologistas”.[13]
Ao publico o grupo da revista Guanabara pedia que protestasse “contra todos os atos indecentes”, contra a “horda de poetas laudativos” e contra o empresário que sujasse um teatro com “dramas imorais”.
O esforço do grupo palaciano foi em vão porque sua revista acabou morrendo de inanição por falta de publico leitor. Em contrabalanço, no entanto, coube aos historiadores a vingança posterior, ao eliminar do cânone tudo que tivesse cheiro de povo. Até hoje poucos resgates foram efetivados, como é o caso de Manuel Antônio de Almeida. Outros, menos felizes, continuam no limbo.
Concordo com Tânia Serra e arrisco aqui a acrescentar que, talvez, nalguns autores do final do século XIX, seja possível identificar-se ainda uma filiação mais direta com o realismo romântico de Eugène Sue do que propriamente com os naturalistas, caso por exemplo de Xavier Marques e Anna Ribeiro de Góes Bittencourt, na Bahia.
Com este trabalho eu estou pretendendo sugerir a ampliação do resgate de obras dos meados do século XIX voltadas para os interesses do povo brasileiro e uma leitura comparativa entre as obras de autores como Junqueira Freire e Manuel Antônio de Almeida e as de Lamennais e Eugène Sue.
Na realidade, não foi o povo que não “apareceu” em obras dessa época. O que ocorreu foi a exclusão dessas obras da história e da crítica literária brasileiras.
[1] Felicité-Robert LAMMENAIS (França: 1782-1854), socialista utópico, tendo sido deputado à Assembléia nacional em 1848. Publicou obras que tiveram grande repercussão no Brasil: Essai su l’indifférence en matière de religion (1817), Paroles d’un croyant (1834) e Livre du people (1837).
[2] Revista literária. O progresso. Tomo II,n. 11, jun –jul., 1847, pp. 226.
[3] O livro do povo. O vapor dos traficantes (PE), 16 out. 1858, p.2.
[4] Victor COUSIN. Curso de História da Filosofia. Tradução de A. P. de Figueiredo. Recife: Tip. de M. F. de Faria, 1843, 1844, 1845. 3 vol.
[5] P. Leão VELOSO. “O povo”. Aurora, Recife, maio-ago., 1849, p. 74.
[6]Anônimo, “O que é o povo”. O brado do povo, Recife. 10 maio 1856, p. 4.
[7] O Povo da Bahia, transcr. em O Brado do Povo, Recife, 3(96):4, 10 maio 1856.
[8] Idem, idem.
[9] Ms. IHGB, Coleção Barão de Loreto. Lata 171 - doc.1. Carta datada de Natiba, 23 de março de 1856.
[10] Franklin DÓRIA. Enlevos. Recife, 1859, p. 422.
[11] Originalmente publicado no Diário da Bahia, 6 out. 1859. Apud. Soares de AZEVEDO, Rodrigues da COSTA e Torres BANDEIRA. Juízos críticos sobre os Enlevos de Franklin Dória. Bahia. Typ de Camillo de Lelllis Masson & C. 1867. p.16.
[12] “O nosso teatro dramático”. Guanabara, n. 3 de 1852,p. 98
[13] Idem, p.103-4.
[14] “Introdução crítica”, Antologia do romance-folhetim (1839 a 1870). Brasília: UNB, 1997, p. 23.